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Tradição Académica - Saudações "Caloirosas"Cláudia Pinto (JUP) Em Outubro com o início do ano lectivo nas universidades, é tempo de praxes. Muito se lê e muito se escreve sobre este tema... Tradição, fascismo,repressão, companheirismo, igualdade, elitismo, humilhação, integração, boémia revolução, violência, diversão... são alguns dos conceitos associados ao mundo académico. Antes de escrever esta reportagem, relembrei princípios básicos do jornalismo: isenção e imparcialidade. Tendo isso em conta, pus de lado, tanto quanto possível, a minha condição de estudante universitária e o consequente envolvimento na matéria. Falei com académicos ferrenhos e anti-praxistas convictos. Não esqueci também o papel do jornalista: percepcionar todo um mundo que se ergue em seu redor; seleccionando aquilo que se destaca e traduzindo-o para palavras claras e objectivas, ainda que, por vezes, envoltas por um certo "floreado literário" que fica sempre bem, com o intuito de fornecer informação para que o público possa fazer o seu próprio juízo. Pesquisei e seleccionei dados que espero serem suficientes para formar uma opinião, independentemente de ser a favor ou contra, com argumentos e conhecimentos válidos. Sublinho isto porque muitos aceitam a praxe como um dogma e outros recusam-na com base em falsos preceitos. Para falarmos, quer com o intuito de defender; quer de criticar; devemos, obviamente, saber do que se trata. Em 1228, época marcada pela evolução económica, social e cultural, D. Dinis fundou os Estudos Superiores de Lisboa, aprovados pelo Papa Nicolau IV, em 1290. Devido a distúrbios entre estudantes e população, em 1307, o rei pede ao Papa para mudar as instalações de cidade, o que só acontecerá em 1308, tornando-se assim a Universidade de Coimbra numa das mais antigas da Europa. D. Dinis ordenou horas de estudo e de recolher. Caso os estudantes não cumprissem eram detidos pela polícia universitária. Como em qualquer outra instituição, foi implementada uma hierarquia, tendo por base o n.0 de anos que o estudante frequenta. Estas e outras ordens que foram instituídas serviriam de base para a praxe. Por exemplo, com a extinção da polícia universitária, surgiram as trupes. No séc. XVIII, a praxe conhece o seu lado mais brutal. Em 1727, D. João V manda proibi-la na sequência da morte de um caloiro. A sua prática teve alguns interregnos devido a condições políticas, económicas e sociais, como a proclamação da República e a 1 Guerra Mundial. Revoltas Estudantis Os universitários foram, por diversas vezes, exemplo de um espírito inconformista e reivindicativo. Relembremos: o movimento estudantil no "Maio de 68"; o protesto contra a discriminação sexual nas universidades;no início dos anos 60, acções de apoio ao movimento de negros, de defesa do meio ambiente e contra a guerra nuclear; luta contra o salazarismo, a guerra colonial, o regime racista da África do Sul e o fascismo Marcelista; contestação às PGA's e às propinas. Durante a ditadura, a praxe teve altos e baixos devido à forte contestação estudantil e à reacção que suscitava. Muitos estudantes sofreram represálias, o que culminou no Luto Académico, em 1969, Como forma de protesto à repressão, os universitários suspenderam as actividades académicas. Com o fim do luto, iniciou-se em 1979, em Coimbra, a Ordem Praxe e Academia por um grupo de Veteranos preocupados com a "perseguição política" e os exageros que caracterizavam a reactiva praxe Coimbrã. Esta expandiu-se por território nacional e internacional (Espanha, Itália, França, Reino Unido, Irlanda e EUA). Actualmente, existem movimentos anti-praxe, nomeadamente, o MATA (Movimento Anti-Tradição Académica) e o Antípodas que, alegando tratar-se de um atentado à dignidade e à integridade física e psicológica, pretendem abolir a praxe. Estes fazem referência ao artigo 37º da Constituição da República Portuguesa, cujo paradigma se pauta pelo direito à livre expressão e garante o respeito pela dignidade da pessoa humana. Publicado também no Diário da República, sendo lei em Coimbra, foi o Palitométrico, ou seja, a praxe. O nome deriva de uma das práticas mais conhecidas da época, que consistia em pedir ao caloiro para medir grandes distâncias com um palito. Traje O Traje académico, também conhecido por Capa e Batina, foi objecto de significativas transformações, no talhe e no aspecto, ao longo dos anos. Reza a história que, no séc.XVI, é introduzida no vestuário a calça. O Clero que dominava o ensino, considerou tal indumentária imprópria, defendendo o uso de uma batina até aos pés, que passou a usar, assim como os estudantes e professores universitários. O gorro do traje servia para transportar os livros e o fecho da capa permitia colocá-la na cabeça para protecção da chuva. Quando é publicado o I Código da Praxe Académica, em 1957, o traje passa a ser uma entidade uniformizadora, permitindo a normalização de estatutos sociais e económicos de todos os estudantes. As normas são explicitas, todas as estiquetas devem ser removidas para não haver distinções, não se pode evidenciar sinais de riqueza, deve-se ser discreto. O traje representa humildade e respeito, deve ser usado com orgulho, nunca com arrogância ou vaidade. Trajados todos são iguais, as pessoas apenas se distinguem pelo que valem, não pelo que têm. Podemos concluir que entre iguais são ímpares, únicos, acreditando-se que dai advém a simbologia do ímpar na praxe. O traje feminino surgiu no Porto. Existe uma foto de l920, de 3 raparigas de Belas Artes trajadas com capa, sala comprida e casaco. O "rasganço" após a licenciatura deve ter surgido com a "Farraparia" que durou até 1910, era feita na Faculdade de Direito de Coimbra, após o anúncio do último dia de aulas, em que os alunos do 1º ano esperavam os do 5º, perseguindo-os com a finalidade de lhes rasgar as batinas e as capas. Os cortes na capa têm um significado, são feitos pela família (lado esq.), amigos (lado dir.) e pelo(a) companheiro(a) (centro). Fitas As fitas são uma consequência da pasta dos meados do séc. passado que tinha três laços de fita da cor da Faculdade para prender as duas partes que a compunham. A tradição de as queimar remonta à década de 50, do séc. XIX. Mais tarde, vieram as Festas do Ponto (Latadas, Centenários da Sebenta e Enterro do Grau). O primeiro acto conhecido das festas ligadas à queima das fitas, já com programa estruturado, e de 1901. A partir de 1926, os grelos passam a queimar-se no "penico", motivo pelo qual é símbolo praxístico; como a tesoura, que as trupes usam para o rapanço; a moca; e a colher; que está relacionada com o nascimento das tunas, que se deu em Espanha, onde os estudantes que eram muito pobres, andavam de porta em porta, a tocar e a cantar, com uma colher a pedir sopa. As fitas, assim como a semente, a nabiça, o grelo, a cartola e a bengala, são insígnias, representando o ano que se frequenta. Arquitectura Após o Luto, Belas Artes nunca retomou as praxes, sendo, na sua generalidade, anti-praxista, Arquitectura integrada na data na FBAUP, levou consigo, para o Campo Alegre, esse legado. Após vários incidentes, durante as semanas da queima, por actos menos próprios de parte a parte, surge uma novidade. A Faculdade de Medicina, na qualidade da mais antiga do Porto, em parceria com Letras e Ciências, está a iniciar na praxe cerca de 60 pessoas de Arquitectura, do 1º ao 5º ano. O saldo, segundo os que aderiram, "é positivo pois permite conhecer mais gente numa semana do que em todo o curso, no verdadeiro sentido da palavra, pois há um forte companheirismo". Acerca das reacções dos restantes, "há ainda um longo caminho a percorrer até que o facto seja, simplesmente, tido em consideração, mais por parte de professores do que dos alunos. Por isso, a praxe tem sido efectuada fora do recinto da faculdade." Como justificação, referem que "há falta e deturpação de informação. Há ideias pré-concebidas, muitos nem tentam saber do que se trata, negando algo à partida. Os media têm o seu quinhão de culpa ao noticiar apenas o lado negativo por ser o mais rentável." Apesar disso, admitem que, "por vezes, há abusos de autoridade que se traduzem em incidentes graves." No entanto, acreditam que "não se pode julgar o todo pela parte." Como indivíduos de uma sociedade democrática que somos, devemos respeitar opiniões e posições distintas das nossas, mesmo não concordando com elas. A praxe deve ser opcional e com isto digo que quem não quiser não deve ser praxado. Mas não esqueçamos o reverso da medalha, quem quiser tem direito a sê-lo. Mal interpretada por uns, mal exercida por outros, a praxe académica é e sempre será um terna controverso, objecto de debate. Dizem que para quem não acredita nenhuma explicação é possível e para quem acredita nenhuma explicação é necessária. Talvez seja isso que acontece com a praxe, para quem não a vive é Inconcebível, mas para quem a vive é incontestável. Topo"Investidas", "Caçoadas" e "Troças"Andreia Sanches (Público, 12/01/03) Ao longo dos séculos, a questão das praxes nem sempre foi pacífica, mesmo em Coimbra. Hoje têm o nome de "praxes", mas até ao século XVIII fala-se de "investidas". Os rituais destinados aos novatos da Universidade de Coimbra foram muitas vezes marcados por alguma dose de violência, várias vezes postos em causa e até proibidos. Em 1727, por exemplo, D. João V interditou totalmente qualquer "investida". Alegou o rei que as actividades, apesar de serem muito antigas na universidade, se haviam tornado cada vez mais bárbaras. A morte de um estudante, no ano anterior, poderá ter sido a última gota. E o monarca deliberou: "Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos." Teófilo de Braga é um dos que dão conta de como muitos estudantes não iam à universidade, a não ser nos exames, para escapar "à fúria" dos colegas. "Enquanto o estudante vivia em Coimbra, envolvido ou exposto às sangrentas investidas, tinha de andar armado até aos dentes." Segundo a definição da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, a praxe académica é uma reminiscência dos tempos em que existia, em Coimbra, uma jurisdição especial, chamada "foro académico". Ou seja, os estudantes e professores da universidade não respondiam perante as autoridades ordinárias. Assim foi até 1834. As regras eram apertadas nesses tempos. Nenhum estudante podia sair à rua depois das seis ou sete da tarde, conforme fosse Inverno ou Verão, sob pena de ser apanhado pela Polícia Académica e levado para a cadeia da universidade. Com o fim do foro, os estudantes de Coimbra decidem fazer, só para os caloiros, uma adaptação especial desta tradição. Organizam-se e, após o toque do sino da torre da universidade, a que ainda chamam "cabra", vão pela cidade à procura dos infractores. Já no século XIX, deixa de falar-se em "investida". As práticas relativas aos caloiros começam a designar-se frequentemente por "caçoada" e "troça". Na segunda metade do século XIX, novos episódios violentos são relatados. Os novatos são "tosquiados", obrigados a cantar e a dançar e envolvem-se em cenas de pancadaria com os mais velhos. Em 1873, um estudante, depois de ver o cabelo cortado à força, fere mortalmente um dos agressores. Com a proclamação da República, a praxe quase desaparece. A "cabra" deixa de ser ouvida na cidade. Mas muitos sentem-lhe a falta. Em 1916, "uma representação assinada por 825 estudantes" pede a restauração das praxes académicas. Estala o debate. "Abaixo as praxes ridículas e inoportunas!... Fora com o micróbio da reacção que ameaça insinuar-se na sociedade republicana corroendo-lhe o feitio e enegrecendo-lhe o futuro!", lê-se num artigo de 14 de Dezembro de 1916 publicado no bissemanário "A Resistência". Os movimentos pró-praxe não desistem. As práticas renascem em 1919, para voltarem a ser abolidas apenas em 1960, com a crise académica. A eliminação da "sanção de unhas", do recolher obrigatório e do "rapanço" foi progressiva. A praxe era vista como "uma prática de pura alienação". Quatro anos depois do 25 de Abril, os estudantes voltam a bater-se para que a tradição seja recuperada. E conta-se que, a 2 de Junho de 1979, milhares de pessoas terão aplaudido, na Baixa coimbrã, o aparecimento de estudantes de capa e batina. É o ano do regresso da Queima das Fitas e das praxes. Então, tal como agora, as opiniões continuaram divergentes: o que falta são praxes iguais às do passado, era melhor que fossem diferentes ou mais valia acabar com elas? A questão deixou de colocar-se apenas em Coimbra, cidade berço desta tradição. Com a disseminação das praxes, a partir da década de 80, um pouco por todo o país, também o debate se revestiu cada vez mais de carácter nacional. Bibliografia consultada: Lamy, Alberto Sousa; "A Academia de Coimbra - 1537-1990", Edição Rei dos Livros, 1990 TopoHistória da garraiada académica(Retirado da página da Queima das Fitas do Porto de 2003) Este evento, com origem na mais tradicional festa brava portuguesa, atrai todos os anos à Praça de Touros escolhida para esta actividade vários milhares de Estudantes que esgotam completamente a sua lotação. A disputa que se verifica na arena entre as diferentes equipas de forcados, oriundos das diferentes Instituições de Ensino Superior da nossa cidade, é do mais alto nível, sendo que a saudável competição passa para as bancadas sob a forma de um prémio a atribuir à melhor claque e premiar o colorido e entusiasmo constante dos assistentes deste espectáculo. A Garraiada como actividade académica realizou-se pela primeira vez em 1929 na Praça de Santa Clara, em Coimbra, embora alguns digam que já faria parte das festividades desde finais do século XIX ou princípios do século XX. Já durante o século passado, existia a chamada "Tourada dos Caloiros". Os doutores de determinado curso atavam as extremidades das fitas, com que então seguravam os livros, umas às outras, fazendo um círculo. Depois, segurando as fitas, faziam roda e empurravam para o meio um caloiro que "desviavam" do Liceu de Coimbra, para a nobre função de lhes servir de touro. Talvez por isso fosse normal que os caloiros se abstivessem de sair à rua durante estes dias, razão pela qual muitas vezes os doutores tinham de se contentar com um animal pequeno, como o carneiro ou cabrito. Hoje, o domingo da Queima, é passado na Póvoa do Varzim. A garraiada é uma festa brava que movimenta muita gente e muita cerveja. É um dia particularmente alegre e festivo em que se comemora, já com saudade, o fim da queima da fitas do Porto. A praça de touros é tradicionalmente o local escolhido pelos estudantes do Porto para o confronto amigável. Não só com os touros, mas também e principalmente entre as diversas instituições que fazem questão em estar representadas. O prémio de melhor pega faz com que todos se esforcem para, com mestria, fazer a pega mais bonita e aclamada. Aqueles que, nas bancadas, mais berrarem levam para casa o prémio de melhor claque. Quer um quer outro são há muitos anos alvo da mais acérrima cobiça. Efectivamente é motivo do maior orgulho ser detentor de qualquer um destes prémios. Muitas vezes o ou os vencedores exibem com visível regozijo a sua taça na festa dessa noite. Isto leva-nos a outro assunto. O último dia de Queima não é exclusivamente ocupado pela garraiada. Tudo começa à saída do Queimodromo. É tradição ir directamente para o local da garraiada. A organização, ciente das carências de sono que os estudantes são particularmente vítimas nesta semana, escolhe como local uma zona com acesso directo à praia. Efectivamente, nada melhor que um pedaço de areia para tirar uma soneca antes da grande festa. A seguir à garraiada propriamente dita segue-se o jantar. Para tal existem os restaurantes oficiais em que estarão disponiveis magníficos repastos a preços modestos apropriados a bolsos de estudantes. E para acabar em grande este dia nada melhor que uma fantástica festa. Boa música e bebidas a preços acessiveis são os condimentos necessários para acabar em beleza. Quando o sol começar a raiar o coração começará a apertar já saudoso de mais uma Queima. Será então altura de dizer "para o ano não posso faltar". Topo |
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